O conceito de “sociedade de risco” do sociólogo alemão Ulrich Beck é mais que atual nesse momento de emergência de um novo coronavírus, que vem provocando a pandemia mundial de COVID-19. Nos últimos cinco meses, essa pandemia tirou todo o globo dos eixos, causando algo inédito nas histórias das sociedades contemporâneas que é a instalação de um movimento de distanciamento entre as pessoas voluntário ou imposto por instrumentos institucionais de uma nova ordem social nunca vivenciada pelas gerações desde século.
No conjunto de suas obras voltadas para a emergência do novo padrão social do risco, evidenciam quatro pressupostos essenciais em sua análise: primeiramente, os riscos são globais, sendo sentidos por todos, mas com intensidade diferente entre as classes sociais e em todos os lugares, do país desenvolvido ao em desenvolvimento, tornando a repartição desses riscos aparentemente mais democrática e equalizada; segundo, a distribuição dos riscos e a sua intensidade é definida de acordo com as características da estrutura social; terceiro, a dimensão dos riscos está associada à crise ambiental contemporânea; e quarto, a inovação científica e tecnológica não é totalmente isenta e pode potencializar os riscos em escala global.
Ao observar a vulnerabilidade no contexto dos indivíduos, é perceptível que as situações de risco se constituem ameaças mais intensas em grupos sociais vulneráveis, tais como: populações envelhecidas, populações com comorbidades e populações de excluídos e de minorias sociais (pobres em geral, moradores de rua, refugiados, quilombolas, indígenas entre outros). Na perspectiva dos territórios, observamos que os casos estão concentrados em especial nos grandes centros urbanos e nas áreas de grande concentração populacional e de fluxos de mobilidade – em especial, nas periferias urbanas que configuram os assentamentos subnormais, popularmente conhecidos como favelas, cujas moradias são precárias e inadequadas em relação ao adensamento populacional, além de deficitárias no acesso aos recursos básicos (água, energia, saneamento) e de saúde (serviços de saúde, rede básica e especializada hospitalar).
É notório nacional e internacionalmente que a população brasileira tem as condições de vulnerabilidade sobrepostas em relação aos indivíduos e territórios. As populações mais vulneráveis estão nos territórios urbanos das cidades brasileiras em sua diversidade e complexidade de formas que se apresentam em metrópoles, regiões metropolitanas, grandes, médias e pequenas cidades, conforme se observa no Índice de Vulnerabilidade Municipal ao alastramento do Coronavírus (IVC)⁵ das cidades brasileiras mais vulneráveis ao aumento da COVID-19 com base na combinação das condições de densidade demográfica geral e das favelas, dos grupos etários de maior ameaça de risco à COVID-19, das condições de infraestrutura sanitária e elétrica; mercado de trabalho em relação a informalidade e as condições de saúde de áreas com incidência de doenças respiratórias.
Diante desse cenário, é notório que a emergência do novo coronavírus tem funcionado como um novo experimento social para refletir sobre o fato de os riscos serem globais, atingindo a todos em maior ou menor escala. Contudo, suas respostas mais eficazes estão na escala local e requerem sinergia dos governos em todos os níveis, bem como a participação da sociedade em ações individuais e coletivas a partir das experiências internacionais. Todo esse cenário deveria “abrir os olhos” da sociedade e dos governos mundiais sobre a necessidade de adoção de políticas públicas ou ações para enfrentamento de situações de desastres como medidas preventivas de gerenciamentos dos riscos potenciais envolvidos, como o das mudanças climáticas e de outras situações de pandemia de saúde que, apesar de seus efeitos serem mais no longo prazo em relação aos do novo coronavírus, também são globais. No cenário de incertezas, não é descartável a vivência de novas pandemias com (ou mais) estragos como a atual proporcionada pela COVID-19.
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