Professor da UFRN organiza evento internacional em Portugal

Pedro Fernandes, professor do Departamento de Letras da UFRN, desenvolve junto à Cátedra José Saramago da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) o projeto de pós-doutorado “José Saramago e a obra fora dos livros”. A iniciativa, além da pesquisa no espólio de José Saramago, disponível na Biblioteca Nacional de Portugal, na fundação que leva o nome do escritor e em outros arquivos da imprensa cultural portuguesa, inclui uma série de atividades, como a articulação de parcerias acadêmicas, a realização de eventos, a organização de dossiês para revistas acadêmicas e a publicação de livros.

A pesquisa de Pedro Fernandes procura mapear publicações de contos em jornais e revistas nos primeiros anos de dedicação de José Saramago à literatura. “São textos que não passaram aos livros e demonstram que é falsa a ideia comumente veiculada de que o escritor havia deixado de escrever ou mesmo de publicar no longo tempo entre a sua falhada estreia como romancista, em 1947, e os primeiros instantes da sua consagração, em 1980”, observa o professor.

“Saramago se situa na exata posição contrária do mito do tipo inspirado. Toda a sua genialidade foi construída a custo da cara obsessão imposta pela literatura e fruto de extenso trabalho”, destaca Pedro Fernandes. Antes de ser reconhecido com o Prêmio Nobel de Literatura — até agora, o único atribuído a um escritor de língua portuguesa —, Saramago exerceu várias profissões, de serralheiro mecânico a editor, de funcionário de repartição a tradutor, também esteve à frente do jornal Diário Notícias, mas nunca deixou de construir de maneira autodidata uma formação intelectual que passava pela leitura noturna na Biblioteca Municipal Palácio Galveias e pela atividade da escrita.

Se nos jornais, revistas e periódicos se revelam as várias tentativas do escritor de se afirmar entre os autores do seu tempo, o espólio apresenta outras frentes desse mesmo esforço. É o caso, sublinha Pedro Fernandes, dos textos que sequer passaram pelo crivo dos editores, seja porque foram recusados, seja porque o próprio Saramago se recusou a enviá-los para eventual publicação.

O professor refere dois casos. “Cheia”, por exemplo, é um texto que aparece registrado como publicado na revista Vértice, uma revista fundada em Coimbra e que nos anos 1940 foi espaço de resistência à ditadura do Estado Novo, mas, na verdade, o conto parece ter sido enviado, conforme registra-se por escrito a mão no datiloscrito e recusado; a mesma situação se aplica a “Morte de homem”, registrado como publicado no jornal Diário de Lisboa.

A presença de José Saramago na imprensa no início da sua carreira é esparsa. Menor do que a conhecida e até agora registrada nas biografias. Mas, é variada. Passa por várias expressões: pela poesia, pelo ensaio, pela crítica literária. E há inéditos que não estão entre a mais de uma dezena de contos do seu espólio datada de fim dos anos 1950. É o caso do conto “Lezíria”, localizado por Pedro Fernandes e que justifica a hipótese inicial do seu projeto, a de existir na imprensa com a qual colaborou textos que além de publicados em livro ficaram de fora dos inventários feitos até agora.

Estes e os materiais de espólio são textos que demonstram a gênese de vários temas caros à literatura saramaguiana: “os imperativos da burocracia, a injustiça com os mais humildes, a precariedade da vida em país submetido a regime que o manteve isolado por quase meio século; demonstram ainda a formação do seu singular estilo de narrar, nascido, visivelmente, do gesto de ouvir e registrar as histórias contadas pela gente simples” — registra Pedro Fernandes.

Ou seja, à medida que deslinda algumas incongruências que passaram para a biografia do escritor como verdades estabelecidas, o estudo do professor esclarece determinadas gêneses. Também em termos de datas, vale destacar o caso da publicação daquele que foi o terceiro romance de José Saramago, Manual de pintura e caligrafia: “É o terceiro porque, depois de Terra do pecado — publicado com esse título porque a chancela editorial não viu apelo comercial no título original, A viúva —, ele escreveu Claraboia, livro que, depois de enviado a uma editora, ficou perdido até a redescoberta do datiloscrito, quando o escritor já era famoso. Claraboia é de 1953, mas Saramago recusou que fosse publicado em vida, e o livro só saiu um ano depois da sua morte, em 2011. Pois bem, Manual de pintura e caligrafia é o terceiro romance, embora tenham existido várias outras tentativas falhadas nesse gênero até então. Além disso, o livro que costuma ser apresentado como de 1977, foi publicado, na verdade, em dezembro de 1976.”

O romance completa agora cinquenta anos desde a primeira edição, lançada pela Coleção Círculo da Prosa, da Moraes Editores. Para marcar a data, Pedro Fernandes organiza, com os professores Carlos Nogueira, da UTAD, e Filipa Soares, da Universidade Autônoma de Madri, o 3º Colóquio de Estudos Saramaguianos. Parte das descobertas do professor será apresentada durante o evento sediado na Biblioteca Nacional de Portugal nos dias 29 e 30 de julho e que contará com mais de uma dezena de pesquisadores do Brasil, Portugal, Espanha e Estados Unidos. Com o tema “Saramago antes de Saramago? Cinquenta anos de Manual de pintura e caligrafia”, o evento assinala ainda a parceria entre a Cátedra José Saramago, da UTAD e o Grupo de Estudos sobre o Romance, da UFRN.

“Em Manual de pintura e caligrafia, se ainda não encontramos o particular estilo literário que se apresenta no romance seguinte, já estão, como no restante de sua obra imediatamente anterior, vários de seus interesses: seja quanto às figuras, como o homem marcado por uma crise a um só tempo pessoal e coletiva e o imperativo do feminino; seja quanto a alguns de seus topoi, como as relações com a pintura e a criação literária, os impasses da vida profissional e da vida amorosa, a travessia entre os limites da mediocridade e os da ação, ou as transformações socio-históricas de um país entre um regime opressor e a revolução”, lê-se no texto de apresentação do evento.

A primeira edição do Colóquio de Estudos Saramaguianos foi sediada na UFRN, sob coordenação de Pedro Fernandes e Maria do Socorro Furtado Veloso, em junho de 2018, no âmbito da agenda de celebrações dos 20 anos da atribuição do Prêmio Nobel de Literatura a José Saramago. E Pedro Fernandes adianta que uma edição para 2028, na mesma casa, encontra-se em fase de planejamento.

O site para o evento na Biblioteca Nacional de Portugal é https://www.bnportugal.gov.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=2164%3A3-coloquio-estudos-saramaguianos&catid=178%3A2026&Itemid=2152&lang=pt

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