Artigo de estudante de Jornalismo da UFRN é aprovado em congresso internacional sobre mídia e ecologia

O artigo “Pluriversalizar a inteligência artificial: caminhos contracoloniais desde o Sul Global”, desenvolvido pela estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Ana Beatryz Fernandes, em parceria com o professor Antonino Condorelli, do Departamento de Comunicação (DECOM), foi aprovado para apresentação no 9º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies (MEI), que acontecerá de 16 a 19 de novembro de 2026, em formato virtual e conta com a participação de oito países.

O trabalho discute como a inteligência artificial reproduz estruturas coloniais de poder, conhecimento e valores, especialmente por meio da concentração tecnológica e da imposição de perspectivas ocidentais como universais. A pesquisa questiona a ideia de neutralidade dos bancos de dados e analisa como as estruturas que orientam o desenvolvimento dessas tecnologias podem reproduzir desigualdades.

“O artigo vai questionar a ideia de inteligência artificial universal, defende a possibilidade de desenvolver outras formas de IA, mais plurais, mais autônomas e socialmente justas”, explica Ana Beatryz.

A pesquisa analisa três dimensões da colonialidade da inteligência artificial: a infraestrutura, relacionada à concentração de recursos e à exploração de dados e trabalho; a inteligência, que questiona a universalização de uma concepção técnica de conhecimento; e o alinhamento, que problematiza quem define os valores éticos dos sistemas.

A partir de perspectivas decoloniais e contracoloniais, o artigo propõe a pluriversalização da inteligência artificial, defendendo a construção de tecnologias que reconheçam diferentes saberes, culturas e formas de existência, com valorização da autonomia dos povos do Sul Global.

A aproximação da estudante com o tema surgiu a partir de sua experiência no mercado de trabalho jornalístico, em um contexto de expansão do uso da inteligência artificial. Ao acompanhar a produção de notícias em portais e blogs locais, Ana percebeu semelhanças na estrutura e na formulação dos conteúdos, o que despertou questionamentos sobre o uso dessas ferramentas no jornalismo.

“Quando você vai para os eixos locais, você sente que os blogs, os portais, parece que está todo mundo copiando o outro. Parece que é uma notícia só que todo mundo saiu replicando”, relata a estudante sobre uma das inquietações que motivaram a pesquisa.

A partir do diálogo com o professor Antonino Condorelli, as observações relacionadas ao mercado jornalístico foram conectadas a questões mais amplas, como o extrativismo de dados, os algoritmos e as estruturas de poder que atravessam as tecnologias digitais. O trabalho foi desenvolvido por meio de leituras, levantamento bibliográfico e troca de ideias entre orientador e orientanda.

A pesquisa está vinculada ao projeto “Colonialidade Digital, uma proposta de conceituação de possíveis caminhos de ir contra a colonialidade tecnológica” e ao grupo de pesquisa Descom, fundado e coordenado por Condorelli. O grupo discute questões relacionadas à decolonialidade em áreas como política, inovação, tecnologia e comunicação.

Para Ana, a aprovação no congresso internacional representa um marco em sua trajetória acadêmica e na decisão de seguir a carreira científica. A estudante também destaca a importância de levar a produção acadêmica desenvolvida no Rio Grande do Norte a um espaço de diálogo com pesquisadores de diferentes países.

“Eu considero que participar dessa pesquisa, além de ser uma realização pessoal, é também uma realização de poder levar um tijolinho do Brasil, um tijolinho do Nordeste, um tijolinho do Rio Grande do Norte, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como estudante de graduação”, afirma.

A produção integra uma trajetória de pesquisa desenvolvida em parceria com Condorelli, que já resultou em trabalhos apresentados em outros congressos acadêmicos. Para a estudante, a experiência reforça o interesse em continuar investigando as relações entre tecnologia e sociedade.

“Eu penso que foi um ano de consolidação de saber que eu desejo seguir a carreira científica, a carreira acadêmica”, destaca Ana.

O artigo também contribui para ampliar a participação das Ciências Humanas nos debates sobre inteligência artificial, algoritmos e redes digitais, relacionando o desenvolvimento tecnológico às suas dimensões sociais, culturais e políticas. A pesquisa defende que o desenvolvimento de tecnologias seja acompanhado por uma base teórica capaz de considerar as desigualdades e diferentes formas de conhecimento.

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