Pesquisa em Artes da UFRN com internos de Alcaçuz recebe convite para a New York Fashion Week

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com participação de internos da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, recebeu convite para integrar a New York Fashion Week, em fevereiro de 2027. A Coleção Revoada, criada pelos participantes do projeto, reúne 12 looks e 25 peças produzidas com técnicas manuais, como crochê, macramê, bordado e fuxico.

A iniciativa integra o projeto Tecendo Liberdades, idealizado e coordenado por Jéssica Cerejeira, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGArC/UFRN) e professora colaboradora voluntária do Departamento de Artes (DEART). Desenvolvido desde o início de 2026, o trabalho articula teatro, criação de figurinos e formação profissional para pessoas privadas de liberdade.

O projeto surgiu em diálogo com o Grupo Arkhétypos de Teatro da UFRN, coordenado pelo professor Sebastião de Sales Silva e fundado pelo professor Robson Carlos Haderchpek, orientador de Jéssica no doutorado. O professor Leônidas Oliveira, também do DEART, integra o grupo, que conta ainda com cinco estudantes bolsistas.

Uma travessia de pássaros

A proposta artística tem como referência o livro A Conferência dos Pássaros, de Peter Sís, que narra a jornada de um bando de pássaros em busca de um rei. Ao final da travessia por sete vales, os personagens descobrem que aquilo que procuravam eram eles mesmos.

A fábula orienta a remontagem do espetáculo Revoada, pelo Grupo Arkhétypos, com estreia prevista para setembro de 2027. Durante o processo, cada participante cria seu próprio pássaro. A experiência é registrada em diários sensíveis, inspirados na metodologia desenvolvida pelo pesquisador e professor Thulho Cezar Santos de Siqueira.

“Ver os internos se entregando ao jogo e se reconhecendo como sujeitos, como seres criativos, tem sido revelador. A arte tem nos permitido quebrar barreiras e tem nos ajudado a voar, mesmo num espaço de restrição de liberdade”, afirma o professor Robson Haderchpek.

A atividade também integra a pesquisa de doutorado de Jéssica Cerejeira, intitulada Tecidos Encarcerados: o figurino e a cena como tecitura de liberdades, orientada por Haderchpek. O estudo investiga como o figurino e a cena podem atuar como dispositivos de ressignificação identitária.

Para o professor Sebastião Silva, a experiência transforma tanto os internos quanto os integrantes da equipe. “Ao ver aqueles homens se entregando à criação, percebo que a arte abre frestas entre os muros e suspende o tempo pela estesia. Nesse encontro, também sou transformado: suas histórias e gestos deslocam minhas certezas e ampliam minha humanidade.”

As oficinas contam com a participação dos cinco estudantes bolsistas do Arkhétypos: Cadidja Alves Bezerra, Fanny Frasse Alberti, Graicy Awanny da Costa Machado, Layfson Gabriel da Silva Costa e Helton dos Santos Farias. Para Helton, graduando em Licenciatura em Teatro, “o teatro é ainda mais desafiador para um corpo que se modificou com as regras de um espaço que o comprime”.

Anny Costa, graduanda em Teatro, também participa das atividades e descreve o trabalho como um processo de “desconstrução de corpos acostumados a estar de cabeça baixa e braços para trás”. “Reensiná-los a olhar nos olhos é devolver, mesmo que um pouco, da humanidade que foi retirada”, afirma.

Da linha ao figurino

Entre março e julho de 2026, a proposta ganhou forma em uma oficina de costura. Quinze internos combinaram as imagens do livro com técnicas manuais que já dominavam, como crochê, macramê, bordado e fuxico. Nas peças, as franjas foram transformadas em plumagens, os chapéus em cristas e as mangas amplas em asas.

A matéria-prima utilizada foi doada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Norte (SENAI-RN) e por empresas do setor têxtil: Uniformize, Vicunha Têxtil, Santana Têxtil, Bonor e Casa do Zíper.

O resultado foi a Coleção Revoada, composta por 12 looks e 25 peças, concebidos como figurinos que representam a persona-pássaro de cada criador. Em julho, a coleção foi apresentada no GINGA Moda RN, com transmissão ao vivo para dentro da unidade prisional.

Um dos momentos do desfile foi a participação de João Batista, ex-interno que já havia reconquistado a liberdade. Ele cruzou a passarela vestindo o manto de crochê criado na coleção. Atualmente, trabalha em casa com suas próprias máquinas de costura e produz bolsas para vender.

Após o desfile, um vídeo sobre a coleção, publicado pelo stylist e jornalista de moda Rogério S., ganhou repercussão nacional e recebeu elogios da cantora Fafá de Belém. A publicação resultou em mais de 12 reportagens na imprensa e em convites para apresentações no Santa Catarina Fashion Week e na New York Fashion Week, além da possibilidade de comercialização de produtos em uma loja colaborativa de São Paulo.

Em setembro de 2026, a coleção participou do Santa Catarina Fashion Week, em Florianópolis, com apoio do SIFT-RN e da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN).

“A capacidade que a arte tem de humanização e de dar significado à vida é algo muito profundo e único. É algo que tem impactos em muitas camadas”, afirma o professor Leônidas Oliveira.

Formação, trabalho e renda

Além das atividades artísticas, o projeto também desenvolve ações de formação profissional e geração de renda. Aprovado no Edital 001/2026 de Penas Pecuniárias do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), o projeto Costurando Liberdades destina R$ 99,3 mil à oficina de costura da unidade, tendo a Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (FUNPEC) como proponente.

A coordenação é do professor Robson Haderchpek, com vice-coordenação de Jéssica Cerejeira e do professor Sebastião Silva. Desde 14 de outubro, os internos participam de uma formação em moda que contempla desde os fundamentos até a prototipagem. A atividade é certificada pela UFRN e será encerrada com uma mostra-desfile em 12 de dezembro. O projeto também prevê a aquisição de máquinas industriais, manequins de moulage e insumos para a oficina.

As atividades já possibilitam a geração de renda. Por meio de um termo de cooperação com o SIFT-RN, os internos confeccionam, de forma remunerada, bolsas que serão distribuídas como brindes na Feira da Indústria. O trabalho também contribui para a remição de pena.

Outro termo de cooperação está em articulação com a Uniformize. A proposta deve viabilizar a comercialização das peças da coleção em uma loja colaborativa de São Paulo, com repasse dos valores aos internos responsáveis pela criação.

Para dar continuidade às ações, o projeto está em processo de formalização e institucionalização junto à Secretaria de Estado da Administração Penitenciária do Rio Grande do Norte (SEAP/RN). Em 29 de outubro, a equipe apresentou as iniciativas ao secretário estadual da Administração Penitenciária, coronel Raimundo Aribaldo Mendes de Souza. A reunião tratou da institucionalização das ações e dos próximos passos da parceria.

A equipe também prospecta a criação de um galpão fabril dentro da unidade prisional, com ampliação dos postos de trabalho e de formação. A proposta conta com o incentivo do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT-RN) e deve concorrer a um edital do órgão.

Para além dos muros

A experiência desenvolvida em Alcaçuz também vem sendo apresentada em espaços acadêmicos. Em outubro, o trabalho foi apresentado no 21º Colóquio de Moda, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Florianópolis. Em novembro, será apresentado em Sevilha, na Espanha, durante o ICERI2026 (International Conference of Education, Research and Innovation). Na viagem, a pesquisadora também visitará o Centro Penitenciário Sevilla II.

O convite da Runway 7 para a New York Fashion Week, prevista para ocorrer de 10 a 14 de fevereiro de 2027, no Sony Hall, representa uma nova etapa para a Coleção Revoada. A equipe busca parceiros e patrocinadores para viabilizar a participação no evento.

Para 2027, também estão previstas uma exposição das peças na Pinacoteca e a realização de um desfile na sede da SEAP.

“Quando um homem que aprendeu a se encolher veste uma peça que ele mesmo criou e caminha de cabeça erguida, algo se reorganiza por dentro. O figurino permite que ele seja visto por outra narrativa, que não a da sentença. É isso que a arte pode oferecer: ferramentas para que eles escrevam uma nova história com as próprias mãos”, afirma Jéssica Cerejeira.

O desenvolvimento do projeto pode ser acompanhado pelo perfil @tecendoliberdades, no Instagram. Para o professor Sebastião Silva, a experiência também provoca reflexões sobre a troca de conhecimentos entre os participantes: “Afinal, quem ensina quem a voar? Descubro que, enquanto provocamos o voo, também aprendemos a abrir nossas próprias asas.”

Internos trabalham em seus diários sensíveis na criação dos personagens-pássaro que vão integrar o espetáculo Revoada. Rostos preservados. Foto: acervo Jéssica Cerejeira.

Georisco disponibiliza publicação gratuita sobre riscos e desastres

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por meio do Georisco, disponibilizou gratuitamente a publicação “100 coisas para saber sobre riscos e desastres” em seu site. A iniciativa propõe ampliar o entendimento da população sobre riscos e desastres presentes no cotidiano. Com linguagem acessível e exemplos do dia a dia, o conteúdo foi elaborado…

Continue lendo