Pesquisa estuda trauma em ‘testemunhas do suicídio’ na Ponte Newton Navarro

Liria Paz, Tribuna do Norte

 

Inaugurada em 2007 com a função de conectar as zonas Sul e Norte de Natal, a Ponte Newton Navarro é um dos cartões postais da capital potiguar. Erguida sobre o Rio Potengi, a construção também é palco de eventos trágicos. Diversas pessoas a usaram para cometer suicídio. Ao longo do tempo, os casos ganharam notoriedade. Por trás deles, existem histórias pouco comentadas. Pescadores e comerciantes que tiveram as vidas atravessadas pelo peso de testemunhar algumas das mortes. Para mostrar essas realidades, pesquisadoras da UFRN realizaram um estudo para entender o impacto do suicídio na vida das pessoas que trabalham na Redinha. Neste mês, celebra-se o Setembro Amarelo, que fala da importância da prevenção dos suicídios.

Magnus Nascimento
Pescadores conseguem ouvir o som do corpo caindo na água. Convivência com casos de suicídio tem deixado marcas
Pescadores conseguem ouvir o som do corpo caindo na água. Convivência com casos de suicídio tem deixado marcas

É possível questionar-se sobre como o suicídio pode impactar pessoas para além da vítima. Para esclarecer esse questionamento,  a organização americana National Action Alliance for Suicide Prevention – Aliança de Ação Nacional para Prevenção do Suicídio, em tradução livre – realizou uma pesquisa que mostra que um suicídio impacta cerca de 115 pessoas, direta ou indiretamente. Pensando nisso,  as pesquisadoras do Departamento de Psicologia da UFRN Ana Karina Azevedo, Amanda Melo e Olga Hawes partiram com o objetivo de entender esse impacto e buscar testemunhos do impcacto na capital potiguar.

O objetivo era entender como as mortes poderiam ter influência na vida dos trabalhadores. “O mercado é tradicional, muitos trabalham ali há 20, 30 anos e viram as suas vidas atravessadas pela morte de alguém”, comenta. A pesquisadora conta, ainda, que muitos deles precisaram resgatar corpos de dentro da água. Mesmo com a tensão de suas histórias, foi percebido que essa parcela da população necessitava ser ouvida.

Os relatos renderam dois estudos, um deles publicado como capítulo do livro Pesquisas Fenomenológicas em Psicologia, em 2021, e o outro na revista Periódicos Eletrônicos em Psicologia, do Núcleo de Pesquisas Fenomenológicas (Nufen), publicado, em 2020. “Quando nós ouvimos falar sobre os números de suicídios na ponte, nós não ouvimos falar do impacto disso na população do entorno da ponte e isso nos mobilizou”, explica Ana Karina.

Durante meses visitaram o mercado da Redinha. A mesma pergunta foi feita para todos: Como é para você conviver com os suicídios acontecidos na Ponte Newton Navarro? A intenção era incitar o entrevistado para que pudesse falar sobre sua própria experiência. Esse método é chamado de Pesquisa Qualitativa Fenomenológica. Elas queriam sair do que chamam de “espetacularização do suicídio” e abordar uma realidade pouco conhecida. “Acreditamos que esse impacto não é apenas para familiares. Todos aqueles que circundam esse acontecimento acabam, também, sendo impactados”, afirma Amanda Melo.

A primeira pesquisa foi divulgada com o título “Testemunhas de um suicídio: um estudo com comerciantes nas imediações da ponte Newton Navarro em Natal”. Foram ouvidos comerciantes do mercado da Redinha, no ano de 2018. O período das entrevistas coincidiu com o expressivo aumento de casos de suicídio na ponte. O ano seguinte foi marcado pela presença dos “sentinelas”, pessoas que monitoravam a extensão da ponte na intenção  impedir suicídios no local, quando a pesquisa estava em curso.

Primeiro, o que mais escutaram foram questionamentos. Karina conta que as pessoas não entendiam o interesse repentino em suas histórias.  “Mas ninguém quer falar com a gente, por que vocês querem?”. Essa era a pergunta mais frequente. A partir daí a pesquisa começou. Seguiram pelo mercado na Redinha, hoje em reforma. Medo, mudança na rotina e na percepção da vida e da morte, até indiferença com a frequencia dos casos foram os pontos mais mencionados.

Ana Karina explica que parte dos comerciantes do mercado da Redinha se retraem ao perceber qualquer movimento suspeito. “Ao verem uma pessoa postada em um possível movimento, comportamento que pudesse incitar o suicídio, como eles se recolhiam para dentro do mercado”, relata. Ela diz que mesmo o ato de recolher-se também os fazia testemunhar. “O mais mobilizador dessa pesquisa é o fato deles lidarem tão diretamente com o suicídio faz com que eles tentem significar isso”, explica Karina.

A segunda fase rendeu o capítulo “Minha vida é o mar: pescadores e seus testemunhos de suicídio na Ponte Newton Navarro”. Essa foi feita com relatos de quatro pescadores, no ano de 2019. As pesquisadoras relatam que as mortes tornaram-se, de certa forma, parte do cotidiano dessas pessoas. Algumas delas são traumatizadas, passaram a enxergar a vida com outros olhos e a se questionarem sobre a finitude do ser humano.

 

O estudo trouxe à tona relatos e histórias. Deu, para além disso, a oportunidade de conhecer realidades diferentes do espetáculo que ronda o noticiamento das mortes que acontecem na Ponte Newton Navarro.  Pessoas que, embora estejam rodeadas por acontecimentos difíceis, aprenderam a conviver com a finitude da vida. Para além destas, as próprias autoras também sentiram impacto em coletar os relatos. “Eu não passo mais pela ponte do mesmo jeito”, conta Ana Karina.

História de pescador: veja relatos de testemunhas

Assim como as pesquisadoras, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE foi atrás desses relatos. Nas imediações da construção, dezenas de comerciantes e pescadores compõem a cena. Entre uma rede de pesca e outra, ao som das vendas da tradicional ginga com tapioca, as pessoas seguem a vida imersas no trabalho e afazeres do dia-a-dia. Entre esses cidadãos está o pescador Pedro Bonifácio, mais conhecido como Chico. Ele mora na Redinha há cerca de 43 anos e, embora não saiba precisar a quantidade, conta que já presenciou mais de 10 suicídios. Um levantamento feito peo periódico online Época, estima que só em 2019, 413 pessoas se suicidaram ao se jogar do vão central da ponte.

A sua história mais tocante foi do dia que conseguiu resgatar uma pessoa ainda com vida, mas que morreu em seus braços, na margem da água. “Eu consegui arrastar para fora, mas quando segurei na cabeça dele, o corpo já desfaleceu”, lembra. O caso aconteceu em um dia de pesca comum e se junta a outros de pessoas que não conseguiram sobreviver. Ele conta, ainda, que ficou traumatizado. Hoje consegue diferenciar até o som de um corpo caindo na água. “Fiquei traumatizado. Muitas vezes a gente escuta aquelas pancadas. ‘Alguém pulou’. Com dois ou três dias aparece”, conta.

O reconhecimento do som também foi um dos aspectos estudados pelas psicólogas. Elas descrevem como a afinação acerca do som do suicídio, fato que também foi relatado por comerciantes. Em um trecho do artigo, elas escrevem: “Retornando ao som do suicídio para os nossos participantes, percebemos que passa a ter um significado àqueles que ali convivem com essa realidade, passa a compor seu horizonte histórico, passa a ser nomeado como o som do suicídio, o som da morte”.

O texto contém diversos relatos que mostram a familiaridade dos personagens com o som do impacto de um corpo na água.  “ É nesse som que deixam de ser meros observadores desconexos de uma realidade alheia, e passam a ser parte de um momento da vida de alguém: sua morte”, escreveram. O momento em que os trabalhadores emergem de suas rotinas ao ouvir o barulho de alguém que decidiu colocar um final definitivo em sua vida.

Paulo relata que busca entender as motivações das vítimas, mas entende que cada pessoa lida com os próprios problemas de formas diferentes. “Só fico assim, querendo entender. Cada pessoa tem seus motivos, né, seus problemas”, diz. Esse é o primeiro ímpeto. O questionamento vem e vai, assim como os casos. Hoje segue a vida normalmente, embora os suicídios ainda aconteçam, não sente mais que precisa se mobilizar a respeito.

“Você se acostuma com aquilo. Fica como se fosse uma coisa normal”, comenta. Paulo mostra que, de início, as mortes eram tratadas como grandes acontecimentos. Hoje, não há mais surpresa, as pessoas já até e acostumaram. “Antigamente, morria uma pessoa e vinha um bocado de gente olhar. Hoje em dia, não”, completa. Para eles, o importante é saber se a vítima é alguém conhecido. Se não, não há motivos para se surpreender, apenas lamentar e seguir, como se não tivesse acontecido.

O pescador comenta que, embora os casos tenham atraído uma notoriedade negativa para a Ponte Newton Navarro, a construção continua sendo parte de uma bela paisagem, que compõe o dia do natalense, em especial daqueles que trabalham nas proximidades da Redinha. “É o cartão postal da cidade. Continua sendo um símbolo bonito, assim como o Morro do Careca”, afirma. Ele conta, ainda, que não dá para viver a vida em volta desses acontecimentos. Mesmo com os problemas, a vida deve continuar. Entre uma pesca e outra, a cada novo amanhecer.

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