Um artigo escrito pelo doutorando Maia Neto e pelos professores Magda Dimenstein e Jáder Leite, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGPsi) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), analisa as práticas discursivas sobre o HIV/AIDS em jornais do Rio Grande do Norte durante a década de 1980. O trabalho foi publicado na revista espanhola Estudios LGBTIQ+, Comunicación y Cultura.
Intitulado “¡Y el SIDA, mujer, qué cosa!”: La primera década del sida en los periódicos de Río Grande del Norte (Brasil), o artigo aborda a construção de sentidos sobre o HIV/AIDS durante o primeiro decênio do vírus e investiga como as narrativas produzidas pela imprensa contribuíram para a formação de um imaginário social sobre a doença.
Segundo o estudo, desde sua aparição nos anos 1980, a pandemia de AIDS ultrapassou o âmbito biológico e se consolidou como um campo de disputas científicas, geopolíticas e ideológicas. As narrativas sobre o vírus também atravessaram o cotidiano e a história, contribuindo para a formação de percepções sociais que se transformaram ao longo das quatro décadas seguintes.
Para a pesquisa, os autores utilizaram a plataforma Hemeroteca Digital para acessar jornais digitalizados. O periódico O Poti foi selecionado pela relevância regional e pela densidade temática relacionada ao assunto. O material coletado foi organizado em quadros de identificação e análise a partir da leitura integral dos textos.
A pesquisa é fundamentada na perspectiva do construcionismo social sobre as práticas discursivas. Os resultados apontam que o «HIV/AIDS», em relação às denominações HIV e aids, tensionou o saber médico-tecnológico da época. Os discursos analisados também produziram um pânico social significativo.
O estudo identifica ainda a construção do «outro» como uma estratégia de defesa diante do desconhecido. De acordo com a análise, esse processo também estimulou, de maneira ambígua, diferentes formas de resistência.
Os autores concluem que o discurso midiático teve papel central na produção de sentidos sobre a doença. Ao questionar a estigmatização histórica, o trabalho busca contribuir de forma ética e política para o campo de estudos, desconstruindo preconceitos arraigados na memória social.
