Ontem, foi o Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil. Para muitos, talvez tenha passado como apenas mais uma data de um extenso calendário de “datas comemorativas” e outros talvez sequer tenham sabido; embora seja uma data com já algum tempo de sua celebração. Mas a data não pode ser vista como apenas “mais uma”, pois ela não é.

O dia ontem não era para comemorar nada! Porque, até aqui, não há ainda o que comemorar.  Talvez apenas comemorar a imensa luta que se travou e trava-se todos os dias. A data existe para denunciar o racismo praticado na sociedade brasileira contra negros e negras. Uma das formas de denunciar e combater o racismo é o aumento da “consciência negra”. Aumento de negra luz da consciência lúcida, esclarecida e crítica que deve atingir a todos na sociedade sobre o racismo praticado, admitido, mas igualmente negado, dissimulado, legitimado. A consciência aumentada de todos sobre a existência de práticas veladas ou escancaradas de preconceito e discriminação contra pessoas negras na nossa sociedade. Algo que não é exclusivo da sociedade brasileira, mas que, entre nós, tem suas próprias formas, delas que chegam até à violência brutal das mortes, mas, mesmo antes, à violência das exclusões, marginalizações, ofensas. Como signo trágico da violência racista em nossa sociedade, a morte de um homem negro em Porto Alegre, por espancamento brutal e covarde, praticado por seguranças de um supermercado, na data ela mesma da “consciência negra”, caiu com a violência de um raio, mas sem nenhuma luz, sem nenhum brilho de consciência, carregado de rancor, ódio, sombra e tristeza com que veio.

O racismo é algo odioso e resta como um testemunho da invenção estúpida segundo a qual “raças” existem entre humanos e que algumas são superiores a outras. As “raças superiores” devendo ter privilégios e dirigir as “raças inferiores”. Algo se passa aqui como ocorre também quanto à divisão da sociedade em classes: as “classes superiores” devem dirigir (e ter privilégios) as “classes inferiores”. Essa é a infraestrutura ideológica de sistemas de sociedade que procuram justificar essas divisões e suas desigualdades. Na sociedade brasileira, por razões históricas e sociais que as ciências humanas já puderam demonstrar, ocorrendo da sua divisão em classes carregar e fazer coincidir a sua divisão em segmentos de origem étnico-cultural. O segmento negro sendo aquele mais afetado por essa divisão, conduzido que foi, histórico e socialmente, à margem de todo o usufruto do trabalho, da riqueza, do poder e dos mais diversos direitos.

A bem da verdade, raças não existem. A ideia de “raça” é ela própria uma invenção do racismo. Brancos, amarelos, negros e mestiços atuais temos os mesmos ancestrais. Nós, seres humanos, descendemos todos de sobreviventes do paleolítico que viveram entre 30 000 e 60 000 anos atrás. Temos todos a mesma origem e portamos essa origem em nossos genes, dna, línguas e outras heranças.

O racismo na sociedade brasileira e no mundo precisa acabar. Não é admissível que seres humanos sofram por preconceito e discriminação motivados pela cor de sua pele. Se seres humanos continuarem sendo humilhados, ofendidos e agredidos por racismo, nossas sociedades estarão perpetuando a imposição de um sofrimento inteiramente evitável mas admitido por muitos como se inevitável fosse. Isso não pode continuar! Por sociedades sem racismo de nenhum tipo! Vidas negras importam! Todas as vidas importam!

Natal, 21 de novembro de 2020

Instituto Humanitas de Estudos Integrados da UFRN